"Poucas pessoas há, mesmo entre os pensadores mais serenos, que não tenham sido alguma vez assustadas por uma vaga, e contudo arrepiante, semicrença no sobrenatural".
(O Mistério de Marie Roget - Edgar Allan Poe)

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Lágrima


Eu era novo naquela cidade, e não estava muito satisfeito naquele lugar. Na verdade, eu nunca estava satisfeito em lugar algum. Tudo era monótono, qualquer lugar, qualquer pessoa, qualquer coisa.
Até que um dia, na monotonia do percurso diário para o trabalho, eu a vi. Acho que ela sempre esteve lá, mas eu nunca a tinha notado.
Bonita, cabelos de um louro escuro, e os olhos... grandes e acastanhados, impressionantes! Nunca em minha vida eu tinha visto olhos como aqueles.
Passei a fingir que olhava a vitrine só para observá-la através dos vidros. Eu estava deslumbrado com a graça daquela garota, e ela sempre sorria pra mim, um sorriso discreto, tímido, enigmático.
Depois de uns dias, eu já não parava mais de pensar nela. Saía do trabalho e corria para chegar logo na  frente da loja, escapando de ser atropelado, ouvindo buzinadas e broncas dos motoristas, dando encontrões nos transeuntes, só para ficar mais tempo a observá-la. Uma noite, sentado em frente à janela do minúsculo apartamento alugado, olhando os círculos de fumaça do cigarro, um  pensamento me ocorreu, me lembrei de que sempre que eu passava por ali, tinha a sensação de estar sendo seguido. Por vezes cheguei a olhar para trás. Eram aqueles olhos, grandes e acastanhados, que  me seguiam quando eu passava. Ela me queria! E antes de eu a querer! Pensava nisso e na minha falta de coragem para ir até ela, e no que me fazia fugir, literalmente, sempre que eu via as luzes da loja se apagarem. Isso era uma coisa que me perturbava.
Alguns dias ainda decorreram. Eu continuava na minha rotina de observá-la, e ela a me olhar e a sorrir daquele jeito tímido. E então, finalmente, criei coragem.  'Amanhã, depois do trabalho', pensei. Esperaria ela sair e falaria com ela. Iríamos jantar, conversar, e depois, quem sabe, a um cinema. Eu falaria do meu amor, e a beijaria...
Então era isso, estava decidido! Naquela tarde, mal pude esperar o relógio bater cinco horas, saí correndo, e os quase atropelamentos e os encontrões tornaram a acontecer, até eu parar para comprar flores.
Pensei que seria melhor eu me acalmar. Fui até o bar em frente à loja e pedi um drinque, porém, de dentro do bar, sempre a observar,  notei algo estranho. Não a vi. E ela sempre estava lá, trabalhava lá! Imediatamente paguei o drink e saí, atravessei a rua e ao chegar em frente à loja, pude confirmar sua ausência. Já eram quase seis, ela devia estar se preparando para sair. Esse pensamento me tranquilizou. Esperei, andei de um lado para o outro, as flores na mão. A loja já ia fechar e nada dela aparecer. Resolvi entrar e perguntar. Estranhamente, ninguém a conhecia, todos me diziam nunca tê-la visto. Fiquei atordoado! Saí de lá sem saber o que pensar. As luzes da loja se apagaram, os funcionários começaram a sair, esperei até o último, e nada da minha garota! De repente me lembrei de que nem sabia o nome dela. Não sabia nada sobre ela, onde morava, telefone, nada! Não havia como encontrá-la. 'Se ao menos eu a tivesse seguido! E esse mistério de ninguém saber quem ela é!...  Ela me enganou! Fingiu gostar de mim me olhando e sorrindo daquele jeito, e se foi, e deixou seus colegas a rirem de mim, com estas flores na mão! Que idiota eu fui!'
Eu estava arrasado, ferido, revoltado!
Ameaçava chover. Nada mais restando a fazer, fui embora. Atirei com força as flores numa caçamba de lixo parada na esquina.
Caminhava com as mãos nos bolsos, odiando aquele lugarejo!
Atrás de mim, de dentro da caçamba, em meio a braços, pernas, troncos e cabeças, um par de olhos grandes e acastanhados via eu me afastar. Uma lágrima rolou ali, antes que eu virasse outra esquina e desaparecesse da cidade.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Casa das Rosas





Sentada à pequena mesa do Café daquela ala, viajei no tempo... A casa me levou ao passado. Vi senhores distintos de chapéu e damas de vestidos de ombreiras transitando elegantemente pela rua. Vi as mansões e os Fords e Chevrolets dos barões do café, naquela avenida tão Paulista. Cheguei a ver a dona da casa movimentando-se por entre os cômodos espaçosos, de janelas grandes, as cortinas claras esvoaçando, delicadas, com a brisa da hora. De dentro da casa, um cheiro de café, do jardim, um perfume de rosas. Senti, toquei, ouvi. Cheiros, móveis, quadros, retratos, vozes... E em outro momento, em algum lugar, presenciei recitais, saraus, e ouvi música, porque não se viaja sem música, e sem música, não se viaja.

Eu estava lá, não sei bem onde, ou como, mas de algum modo insólito eu estava lá, no meu silêncio e na  minha invisibilidade de fantasma, um fantasma do futuro.
Sim, é possível viajar no tempo e se ver no meio da poesia e da literatura, de escritores, compositores  e poetas que a gente tanto gosta e admira. Tudo o que se tem a fazer é estar ali, naquele casarão do passado imponentemente encrustado no presente. Tudo o que se tem a fazer é estar ali, pedir um café e olhar as rosas...





Casa das Rosas é um Centro Cultural localizado na Avenida Paulista 37, em São Paulo, e um dos seus  últimos casarões. É também o primeiro espaço público do país destinado à poesia, sendo batizado como Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em homenagem ao poeta paulistano, falecido em 2003.
Projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo, em 1928, a casa mistura métodos construtivos de diferentes épocas, o chamado “estilo eclético”, com influência também da Art Déco. Construída numa área de 5.500 metros quadrados, a casa possui 30 cômodos no estilo arquitetônico francês, claramente divididos em área social, íntima e de serviço. A Casa das Rosas foi declarada patrimônio público pelo Condenphaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), sendo tombada em 1985.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Lição de Casa



As ruínas daquela casa eram o lugar mais misterioso onde já estive. Uma casa antiga, de tijolos de verdade, desbotados de sol e chuva, praticamente sem reboco, cujas portas e janelas de madeira, já há muito acinzentada pelo tempo, apesar de sempre abertas, nunca revelavam os segredos do interior. Para os adultos da vizinhança era só uma casa abandonada, para nós, um santuário de aventuras, e de medo; Sim, medo, porque  mesmo com todo interesse na diversão, sempre sentíamos medo ao entrar lá, um medo gostoso de sentir. Às vezes, uma janela batia, e aí a imaginação corria, tanto quanto nós, apavorados. A casa ficava no nível da rua, mas o terreno era em declive, de modo que, para ir ao quintal, cheio de árvores e mato, era necessário descer uma escada. O vão debaixo dessa escada era um mistério à parte. Nas brincadeiras de esconde-esconde esse era o lugar perfeito para se esconder, porque ninguém queria se esconder ali, e ninguém iria procurar ninguém ali.
Os meninos costumavam "explorar" o quintal, por entre as árvores e no meio daquele mato, enquanto as meninas ficavam bisbilhotando pelo lado de fora das  janelas meio abertas, ou meio fechadas..., dos cômodos do porão. Ah, sim, a casa tinha um porão! Cada cômodo da casa tinha seu porão, como se fosse outra casa, subterrânea, com chão de terra. Distinguia-se cada cômodo pelas colunas nos cantos e pelas vigas do teto, não havia paredes. E aquele cheiro úmido, de terra antiga...  A casa era perfeita!  Ficávamos imaginando passagens secretas, morríamos de curiosidade de saber o que havia por trás de portas, por debaixo de escadas, por entre vãos, e nisso consistia nossa brincadeira, desfrutar do mistério que envolvia aquela casa com seus cantos escuros, suas portas entreabertas, suas janelas batendo, seus rangidos, seu cheiro de passado...
À noite, em nossas camas, imaginávamos que daquelas árvores e do mato do quintal saíam monstros que dormiam durante o dia, e sentíamos medo de que eles viessem nos pegar.  Lembrávamos do que nos disse alguém, que ali morava uma bruxa, e que um dia ela nos pegaria invadindo sua casa e nos castigaria.
À noite pensávamos tudo isso, e cobríamos a cabeça para dormir, mas no dia seguinte, levantávamos já pensando na próxima aventura na casa, em pular em cima do fogão a lenha, em explorar o quintal e bisbilhotar o porão, em colher as flores do mato e colocá-las numa garrafa com água para enfeitar um cômodo, em assustar com uma aranha e fugir de abelhas.
Aquela casa era nossa "amiga oculta", uma espécie de tia, que nos contava histórias sobre um passado imaginário vivido ali, ou irmã mais velha, que brincava de pega-pega conosco, e era sempre ela quem corria atrás de nós...  
Mas eis que um dia, em pleno dia, um monstro que não dormia apareceu, e diante dos nossos olhares assombrados, devorou nossa amiga, parede por parede, mastigou tijolo por tijolo, arrancou-lhe os olhos de madeira acinzentados pela idade, e quando dela só restaram pedaços, esmagou-os, sem dó, sem culpa. A fragilidade da velha casa que nos punha medo nos surpreendeu, e nos decepcionou...
Nenhuma bruxa veio reclamar sua propriedade. Nenhuma bruxa apareceu para castigar o terrível monstro que destruiu seu lar.

Naquela noite, não imaginamos nada, cobrimos a cabeça e choramos baixinho.


Imagem: Dakota Fanning  (filme - O Amigo Oculto)