"Poucas pessoas há, mesmo entre os pensadores mais serenos, que não tenham sido alguma vez assustadas por uma vaga, e contudo arrepiante, semicrença no sobrenatural".
(O Mistério de Marie Roget - Edgar Allan Poe)

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Chalé


 

               Meu chefe me chamou à sua sala quando cheguei no trabalho aquela manhã. Fazia tempo que eu não me motivava a sair para trabalhar. Ao acordar, uma desagradável sensação me impedia de levantar da cama. E eu sabia o motivo: o barulho daquela perna se arrastando!
              Nicolas era um antigo funcionário daquele pequeno jornal. Reservado, quieto, não gostava de brincadeiras, era comum trabalhar o dia inteiro sem proferir uma palavra. Era limitado, sem nenhuma perspectiva, mas responsável e dedicado e um bom colega de trabalho. Algo na sua infância fez com que ele "puxasse" de uma perna. Nicolas era o mensageiro do jornal, durante todo o dia levava e trazia correspondências de um setor para o outro. E durante todo o dia eu ouvia aquele som, o som da perna de Nicolas arrastando no chão.
             Assim que saí, indiferente, da sala do chefe, tomei uma caneca de café, como já era de hábito antes de ir para minha mesa cheia de papéis. Tinha sido assim nos últimos meses. Eu chegava, quase sempre atrasado, tomava meu café e ia para minha mesa. Meus colegas me olhavam, seguindo meus movimentos, depois se entreolhavam e voltavam ao trabalho, sinalizando negativamente com a cabeça, mais por comiseração do que por reprovação. O dia transcorria, o barulho das máquinas de impressão por trás da divisória era  ininterrupto, mas eu só ouvia a perna de Nicolas.
             Ao término do expediente, peguei meu casaco e fui depressa para casa arrumar minha sacola de viagem. Era sexta feira e eu tinha planejado ir para o chalé nas montanhas, herança de meu avô que ali viveu sozinho durante muito tempo. Era um chalé antigo, porém muito bem conservado, limpo e arrumado, graças a Kinder, um velho amigo de meu avô que morava próximo ao vale e que sempre ia até lá para uma manutenção. 
          Tudo arrumado,  joguei a sacola na carroceria da velha caminhonete e parti em direção à estrada que dava para as montanhas, para um fim de semana longe daquela rotina, longe de Nicolas e sua maldita perna! Era outubro, mas o vento gelado de outono não me desanimava.
         Quando cheguei, já estava bem escuro. Eu não sabia ao certo que horas eram porque, quando ia para lá, não levava relógio, queria ficar em paz, livre do tiquetaquear enfadonho de um relógio e seu ponteiro me fazendo olhar para o alto da parede a todo instante. Agora me lembrei: além da perna de Nicolas, eu também podia ouvir o relógio.
          O velho chalé do meu avô era confortável e bem construído. Foi feito em dois níveis. A parte superior servia de quarto, com uma janela que dava para os fundos. Na parte de baixo, pouca mobília: um fogão, uma mesa com cadeiras, uma bancada e um armário para louças e utensílios. A lareira era muito boa, feita com pedras. Ficava na parede dos fundos. A porta ficava em frente a ela. Ao lado da lareira, à direita, havia uma janela, à esquerda da porta, outra janela, de modo que as duas janelas ficavam uma de frente para a outra.  Ao pé da lareira, como não podia deixar de ser, havia uma poltrona e uma banqueta de madeira, feita pelo meu avô, é claro. Num canto, embaixo da escada de madeira que levava à parte superior, havia um baú, onde meu avô guardava suas ferramentas de carpintaria. Meu avô era um excelente carpinteiro, podia fazer qualquer coisa com madeira. Foi ele quem construiu o chalé. 
         
             Kinder havia cortado lenha e eu acendi a lareira. A luz do fogo iluminou e aqueceu o ambiente. Preparei uma sopa, dessas enlatadas. Enquanto a sopa esquentava, saí para a pequena varanda do chalé e fiquei a observar aquela escuridão. Ouvi ao longe o uivo de um lobo, que se confundia com o do vento. Nada. Não havia nada ali a não ser a floresta. E o meu chalé.  A escuridão era tanta que chegava a sufocar. Eu estava tranquilo, em paz, e o mais importante: longe do barulho da perna de Nicolas, para lá e para cá, indo e voltando, arrastando e parando, como uma cantilena infernal e interminável nos meus ouvidos. Como eu o odiava! Havia dias em que eu acordava disposto a matá-lo!
         Voltei para o interior do chalé. Coloquei uma concha de sopa em uma caneca e me sentei na poltrona para saboreá-la. Estiquei as pernas e coloquei os pés sobre a banqueta. Dirigir me causava dores, provavelmente obra da idade, eu já não era tão moço. Segurei a caneca com as duas mãos com o propósito de aquecê-las.  Depois, fiquei a observar o fogo e as faíscas de  brasa que pulavam.  Fiquei assim durante um tempo, até que, com o calor aconchegante e o crepitar do fogo, adormeci.
         Acordei com um barulho. Olhei em volta, o fogo estava fraco, o ambiente frio e escuro.  Coloquei mais lenha na lareira e logo as chamas aumentaram.  Intrigado com o barulho que me fez acordar, tornei a me sentar na poltrona e a observar o fogo.  Adormeci novamente.
         Não sei por quanto tempo dormi, sei que o barulho me acordou de novo. Levantei, agora de um salto! Fui até a janela dos fundos e olhei.  Nada. Depois olhei pela janela da frente. Nada. Nada  havia ali que não fosse a floresta, e o meu chalé. Então, fui até a porta. Não sei explicar porque, mas hesitei ao colocar a mão na maçaneta. 'Que bobagem!  Não tem nada aqui.'
Abri a porta. Uma lufada de vento gelado me atingiu. Olhei. Escuridão. Com uma lanterna, dei a volta por trás do chalé. Nada. Voltei para dentro e tranquei a porta. Sentei-me novamente em frente à lareira. O fogo produzia sombras que dançavam pela sala. Resolvi ir me deitar. Enquanto eu subia a estreita escada de madeira, me pareceu ter ouvido o mesmo barulho. Parei.  Silêncio. Voltei a subir pensando que deveria ser algum animal noturno no teto do chalé.
         Deitei-me de roupa mesmo, pois já devia estar prestes a amanhecer e eu tencionava acordar cedo para pescar no lago que havia nas proximidades. Me cobri com uma grossa manta de lã de carneiro, virei de lado e fechei os olhos. De novo o barulho! Parecia mais perto dessa vez. Num movimento rápido me sentei na cama. E ouvi de novo. Parecia que algo se aproximava.
Ergui-me e fui até a janela. Nada. Sentei de novo e prestei atenção. E ouvi novamente. 'Esse barulho!...  Meu Deus! É um barulho de... de uma coisa arrastando!'
Não é possível! Só posso estar sonhando, pensei em voz alta.
Desci rapidamente as escadas e quase me arrebento lá embaixo. Olhei novamente pelas janelas. Nada ali, a não ser... Bem, já sabem. Então, fui até a porta. Ao me aproximar, parei. Dei uns passos para trás e fiquei parado, olhando para a porta. O som parecia vir do lado de fora. Continuei ouvindo. Algo se arrastava, se aproximava... Fosse o que fosse, estava cada vez mais perto, arrastando e parando, arrastando e parando... Até que parou! Eu olhava para a porta. Meu coração estava tão acelerado que eu quase podia ouvi-lo! Um suor frio e pegajoso brotava da minha testa. Senti a nuca arrepiar, minhas mãos e pés estavam gelados, a boca estava seca. Se quisesse dizer algo ou gritar, não conseguiria. Fiquei ali, olhando para a porta, completamente paralisado por um medo que eu jamais imaginei que pudesse sentir. De repente, a porta se abriu! Um vento gélido invadiu o chalé apagando a chama fraca da lareira. Coisas caíram pelo chão. E eu ali, estático! Foi então que percebi, creio que senti... algo, ou alguém, em frente à porta. Eu não conseguia definir o que era, a escuridão não deixava. Então, o barulho recomeçou: o som de uma coisa que se aproximava, se arrastando! Eu não via nada, apenas ouvia... Arrastando e parando, se aproximando, arrastando e parando... Achei que meu coração fosse explodir! E o barulho cada vez mais perto... mais perto... Quando senti que “estava” bem à minha frente, parou! Eu estava em choque!
                   A luz do dia entrava pela janela do quarto. Percebi que estava deitado em minha cama. Levantei-me e aí me lembrei do ocorrido. Lembrei do barulho, da porta abrindo, do fogo apagando, do suor, “daquilo” parado na minha frente, do pavor! Desci as escadas, ainda meio assustado. Fui ao banheiro, joguei uma água no rosto e saí para a varanda. O dia estava nublado. Fiquei alguns minutos observando, não notei nada de diferente ou de estranho. Nada. Dei a volta e olhei atrás do chalé. Nada. Só a floresta, e o chalé. De repente, algo me chamou a atenção. Eu tinha ouvido o barulho novamente! 'Não! Não pode ser!  Estou louco?' 
Voltei a sentir pavor! Me virei para retornar e ouvi novamente: arrastando e parando,  arrastando e parando... A sensação que eu tinha era de que, o que quer que fosse, tentava me alcançar, mas era lento, se arrastava...  Assim que entrei no chalé, o barulho parou.
Eu não sabia o que fazer. Decidi ir embora! Enfiei umas coisas de qualquer jeito na sacola e ia saindo às pressas daquele chalé quando notei uma coisa: o baú com as ferramentas do meu avô estava aberto!
               Apressei-me em direção à caminhonete. Podia ouvir o barulho bem perto, mais rápido, como se estivesse querendo me alcançar, me impedir de ir embora!
'Nicolas! Vou matá-lo! Juro que vou matá-lo! Ele está me enlouquecendo com aquela perna! A culpa é toda dele!'
            Estava decidido: ia matar Nicolas! Não me importava ir para a cadeia. Queria era me livrar daquele barulho, do som daquela perna se arrastando! Queria me vingar de Nicolas por ter me enlouquecido!
             Entrei na caminhonete e voltei para a cidade. As dores e o nevoeiro me impediam de dirigir rápido.
             Eu sabia onde Nicolas morava, fui direto para a casa dele. Toquei a campainha. Ninguém atendeu. Girei a maçaneta, a porta estava destrancada. Entrei. De repente dei de cara com Nicolas. Golpes a esmo! Três, quatro, muitos! Não via o rosto de Nicolas, mas ouvia seus gemidos abafados, seu corpo deixando um rastro vermelho e mal cheiroso na parede.  Depois, parei. Fiquei olhando para aquela criatura insignificante, no chão, ensangüentada.  Ele ainda gemia, e eu ainda sentia ódio! Dei o último golpe, na perna! Naquela maldita perna! O sangue jorrava. Ele estremeceu por alguns instantes e então ficou imóvel.
             Permaneci naquela cena durante algum tempo, até que senti frio. Muito frio. Tonto, atordoado, saí de lá. Ia na direção da caminhonete quando, para meu pavor, ouvi de novo aquele barulho: arrastando e parando, arrastando e parando..., como se estivesse vindo atrás de mim. Foi então que me dei conta de algo. Parei. O barulho também parou. Olhei para mim, para minhas mãos: estavam cheias de sangue, a roupa empapada de sangue, olhei para baixo, para minhas pernas,  ensangüentadas! E uma dor lancinante me fez gritar.
Dei um passo, uma de minhas pernas se arrastou. Dei outro, a perna se arrastou de novo. Mais um e a perna se arrastou outra vez. E cada vez que eu dava um passo, ouvia aquele barulho: o som de algo arrastando e parando, arrastando e parando...  E tudo então, escureceu.
Eu não ouvia mais nada. Só a floresta, e o chalé.




4 comentários:

Roderick Verden disse...

Vc é muito talentosa, moça! Poe, Poe, Poe.
E postou o conto, justamente quando eu estava com problema na perna, mancando.rs

Seu "O Chalé" daria um bom filme, mas creio q vc não permitiria que Roger Corman o dirigisse.rs

Dá pra se ver, o protagonista arrastando sua perna... e escutar o irritante barulho.

Você é muito especial!

Beijos

Crazy Horse disse...

Ah, adorei o avatar, que é a sua cara(rs). Vc chegou a usar outro, creio q depois desse, de boneca tb, gostei mais ainda!rs

Você é linda!

Uma sugestão: volte a colocar os marcadores com os títulos em ordem alfabética.

Bete Nunes disse...

"Crazy Horse", o avatar a que você se refere é uma boneca chamada "Ligéia". O único avatar de boneca que usei foi esse. Atualmente meu avatar é outro. Com um lobo. Pode ser que não esteja aparecendo para as pessoas, porque nesse blogger tem alguns duendes muito "arteiros".

Obrigada.

Bete Nunes disse...

Eu só aprendi com Poe a teorização. Meus contos são fruto da minha criação. Quanto ao filme, depende, se a adaptação do Corman não fosse tão estapafúrdia quanto o seu "A Tumba de Ligéia"...rs
Eu, de fato, fiz questão de narrar como uma câmera. Que coincidência, essa da sua perna.

Obrigada, moço

Postar um comentário