"Poucas pessoas há, mesmo entre os pensadores mais serenos, que não tenham sido alguma vez assustadas por uma vaga, e contudo arrepiante, semicrença no sobrenatural".
(O Mistério de Marie Roget - Edgar Allan Poe)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Silêcio do Lago

               

Enterrei minha mulher num dia ensolarado.  
Após as últimas condolências continuei de pé diante do túmulo, olhando o nome na lápide, ainda incrédulo. John, meu fiel mordomo, aguardava, solidário e paciente. Não sei por quanto tempo ele esperou até me dizer:                   

 - Senhor, está na hora...

A voz grave de John me trouxe de volta dos meus pensamentos. Retirei da lapela o botão fechado de rosa branca e o depositei sobre o túmulo
A volta à casa foi em silêncio, quebrado apenas pelo som dos nossos passos nas pedras do caminho. 

Meg nos aguardava, estava abatida, olhos vermelhos de pranto e vigília.  Aproximou-se de mim com o bebê recém nascido nos braços. Lancei um olhar duro para ela e me retirei para a biblioteca. Ainda a ouvi dizer:

            - Mas, Senhor...

John deve ter sinalizado para ela me deixar em paz,  pois não ouvi  mais nada.

Os dias que se seguiram, e os anos, eu os passei na biblioteca. Era ali que eu sentia mais forte a presença de Olívia. Ali eu recordava, lia, cuidava dos negócios.  De quando em quando eu parava e fitava o retrato dela sobre a lareira. À noite, antes de me recolher, parava à porta, olhava para o retrato e dizia: "Boa noite, meu amor".

             Com a morte de Olívia passei e ter insônia. E no silêncio da noite eu podia ouvir a casa. Ouvia o estalo das vigas, o ranger de canos, e um bater de vento nas janelas. Mas eu ouvia mais que isso.  Passos leves pela escada, pelo tapete do corredor, um farfalhar de sedas, e um choro, um choro baixo, um lamento abafado. 'O que era aquilo? De quem seria aquele choro? Além de ouvir, passei também a ver... Deitado em minha cama eu via, por debaixo da porta, uma luz amarelo alaranjado que  se aproximava, passava e ia diminuindo... Ouvia  uma porta abrir e em seguida se fechar, e a luz desaparecia. Depois, vozes sussurradas, e então, o choro, o lamento.  Comecei a supor que aquele choro pudesse ser de Olívia! Olívia estava sofrendo! Claro! Seu lamento era pela minha ausência, pela vida que lhe fora retirada! Assim pensando, esperava pela luz, e quando ela se aproximava, saía do quarto, mas nada via além de sombras, ia pelo corredor abrindo porta por porta, mas ela não estava em lugar algum.  Desolado, voltava para o quarto. Me restava continuar com minha sina de ouvir os mesmos sons, de ver a mesma luz, de ouvir aquele choro todas as noites.
Um terror intenso começou a tomar conta de mim, medo e dúvidas me dominavam, noite após noite. Se não era o fantasma de Olívia, o que seria?...

Um dia notei algo no rosto do retrato: pequenos traços de umidade maculavam a beleza da minha amada esposa. Logo me veio à mente:  'suas lágrimas, então era mesmo ela'... E uma tristeza imensa me invadiu.
Afundado em uma poltrona, lembrei-me do que fui; Um jovem rico, formado em excelente universidade, atlético, nadador premiado em torneios estudantis, herdeiro de uma grande fortuna e de um próspero negócio de família, considerado um dos melhores partidos da cidade. Os amigos me viam como um celibatário, e um colecionador de corações femininos. Ocorria que, até então, nenhuma mulher havia me interessado a ponto de eu querer levá-la ao altar. Mas quando vi Olívia... Meu coração soube que seria ela a mulher com quem eu ia querer estar  para sempre.
Repassei nossa rotina. Café da manhã, passeios pelo jardim. Depois eu ia para o meu gabinete, e de lá podia ouvi-la, conversando com Meg sobre seus livros preferidos, sobre o que fazer para o jantar, ou com John, sobre os cavalos e sobre suas amadas rosas. Olívia adorava rosas brancas, dizia que o perfume delas é diferente do perfume das demais, é um perfume "branco", que permanece no ar por muito tempo, que se espalha e vai longe. Nesse ponto, acho que ela tinha razão, porque o perfume das rosas brancas que enfeitavam a capela no seu funeral chegava até a casa, e ficou no ar por muitos dias, mesmo depois de terem sido removidas. Ninguém na casa entendia como isso podia acontecer.  Era  um mistério, o mistério das rosas de Olívia...
À noite, após o jantar, íamos para a biblioteca, tomávamos licor ao pé da  lareira, conversávamos, ríamos, liamos.
Olívia gostava de ler para mim.  Recostado na poltrona, eu não prestava muita atenção no que ouvia, prestava mais  atenção nela, na suavidade da sua voz, na entonação que dava à sua leitura. Às vezes ela fechava o livro de repente e me olhava com expressão séria.  Eu me assustava, ficava sem jeito, como um menino pego divagando ao invés de estudar. Ela se levantava e saía, levando o livro e deixando um perfume suave, um perfume de rosas brancas...
Olhei à minha volta. A mobília, as cortinas, as tapeçarias, até mesmo os livros, toda a mansão, sem a radiante presença de Olívia envelheciam comigo. Olhei no espelho, e o que vi foi uma sombra, a sombra de um homem que um dia conheceu  a  felicidade na plateia de um teatro.

O tempo continuou sua passagem pela vida amargurada que eu vivia.  John e Meg continuavam na casa, fiéis como quando meus pais existiam e eu era um garoto, só que não mais a mim, mas ao ser que me privara da presença da mulher que eu amava.

Todas as manhãs, John levava meu desjejum na biblioteca, me cumprimentava com um formal e impessoal "bom dia, senhor", deixava a bandeja sobre a mesa e, após perguntar se eu desejava alguma coisa, se retirava. Numa dessas manhãs, depois do 'bom dia' e de deixar a bandeja, John postou-se diante de mim e disse:
       
- Senhor, uma criança precisa de estudos. Já é tempo.

Me surpreendi, a principio não fazia ideia do que ele estava falando, mas logo em seguida tudo me veio à mente. A verdade é que eu nunca me importei com aquela criança, nunca me lembrava de sua existência, nunca sequer cruzei com ela na casa, dei ordens expressas para que isso jamais acontecesse.
Me surpreendeu também o tempo que passou, e era como se John tivesse mexido nas minhas velhas e incicatrizáveis feridas.
Sem conseguir dizer nada naquele momento, voltei a olhar os meus papéis. John continuou lá, e como eu o conhecia bem, sabia que não ia arredar o pé dali. Acabei por assentir, visivelmente irritado, e ordenei que saísse.  Ele girou nos calcanhares e se retirou, em sua postura ereta.
Fiquei observando John se afastar, me lembrei do cuidado quase paternal que ele tinha comigo antes de tudo acontecer.
Assim que John saiu, olhei para o retrato. Recordei a notícia da gravidez da minha mulher.
Não recebi muito bem tal notícia, odiava a ideia de ter que dividir a atenção dela. Mas ela estava tão feliz que  acabou por me contagiar. E a minha felicidade era a felicidade de Olívia. Seu sorriso constante, sua risada ecoando pela imensidão daquela casa me enchiam de vigor.  Sua voz cantarolando pelos jardins, seus longos cabelos que pareciam a mais fina seda, seda negra brilhando ao sol, faziam com que eu me pegasse sorrindo junto à vidraça do meu gabinete, de onde a observava.   
Cada vez que a via assim, meu desejo por ela aumentava, e não era raro eu deixar os papéis e ir ter com ela, pegá-la no colo e leva-la para o quarto. Ela ria seu riso aberto, mostrando dentes tão brancos quanto as rosas que adorava, me olhava com dissimulado constrangimento e dizia, passando os braços em torno do meu pescoço:

          -  Querido, olhe os criados...

Aquela falsa preocupação me enlouquecia. Eu a carregava escada acima, a beijava com minha ardente paixão e a amava. À nossa passagem em direção às escadas o casal John e Meg se entreolhava. John, sempre sério, Meg com uma expressão marota, como a convidá-lo para algo parecido. 

Essa lembrança me remeteu à tarde em que, sem que tivessem notado minha aproximação, presenciei  Olívia falando em tom desiludido com Meg  e John sobre deixar para eles nossa fortuna, caso nos acontecesse  "algo de ruim", pois não tínhamos herdeiros.  Meg  respondeu que nada de ruim poderia acontecer conosco, que ela era muito jovem para se preocupar com isso,  e, piscando um olho, disse : ‘a senhora logo logo será mãe...’. Olívia enrubesceu e sorriu, visivelmente encabulada, entendendo bem ao que Meg se referia.  Demorou, para minha satisfação, mas o sonho de Olívia se concretizou,  e iria se transformar num terrível pesadelo, do qual eu jamais acordaria.
            
            Tratei de providenciar uma preceptora. Na semana seguinte, uma candidata se apresentou. Era jovem, de beleza comum, discreta no falar e no vestir, como convém a uma preceptora.  Na mesma hora a contratei.  Para mim, tanto fazia.
A chegada da jovem marcou o início dos dias e noites que eu passaria a viver.  Se antes dela  eu ouvia choros à noite, agora ouvia risos pela casa. Era assim o dia todo. Era assim a noite toda. Foi assim o tempo todo, até  acontecer...

           Veio a primavera. Todas as manhãs, risos lá fora. E foi numa dessas manhãs que, ao invés de risos, ouvi gritos. Reconheci a voz de Meg misturada a outras vozes, todas gritando coisas que eu não conseguia entender. Fui até a vidraça, e antes que eu pudesse ver o que ocorria John entrou porta adentro dizendo que tinha ocorrido um acidente, que a jovem preceptora e a criança passeavam de barco e que, não se sabe como, a criança caiu no lago, que  a preceptora pulou na água e tentou tirá-la, mas o máximo que conseguiu foi com que se agarrassem a um arbusto no meio do lago.
Desci as escadas quase em um só pé. Corri até o lago e entrei na água, e nadei tão rápido quanto nas competições, mas tudo isso fiz pela jovem preceptora. Retirei a jovem e a levei para a margem. Meg a acudiu, John a cobriu com um cobertor. Os dois me olhavam com um olhar misto de interrogação e indignação, a jovem tremia e me olhava com o mesmo olhar, Meg pôs-se a gritar comigo, apontando para lago. Eu estava de costas para o lago e assim permaneci. A movimentação na água continuava sem que eu movesse um músculo, estava atordoado, tinha saído às pressas e de repente de uma rotina de lembranças e saudade, sem nada que alterasse tal rotina, pois eu mesmo não permitia isso. John veio em minha direção e me deu um soco! Foi quando ouvi algo que fez meu sangue talhar, e meu coração explodir:

- Papai! Papaaai...

A voz era fraca, mas ouvi nitidamente.  Pior,  pude sentir o desespero naquela vozinha aguda. Algo dentro de mim despertou! Caí em mim, aquela criança se segurava em galhos e folhas no meio de um lago profundo.
De repente, tudo ficou quieto, o lago estava em silêncio. E quem se desesperou fui eu. Corri para lá, a criança havia desaparecido. Mergulhei e procurei na água turva e fria, até que a encontrei.
Já em terra, pratiquei tudo o que havia aprendido. Usei todas as técnicas de salvamento de afogados, todo meu conhecimento.  De nada adiantou.

Meg se desfazia em prantos e lamentações. A jovem preceptora também chorava. John partiu para cima de mim mais uma vez, os olhos faiscando, mas eu o afastei com toda minha força, pois tinha visto algo sobre o quê jamais tive interesse, sequer curiosidade, a mínima que fosse. As feições daquela criança... Olhei seu  rosto com atenção, me era muito familiar, reparei nos cabelos, eram lisos e negros, como seda negra...   E uma realidade trágica se abateu sobre minha cabeça. A menina que eu tirei do fundo do lago era a minha filha! Minha e de Olívia! Um arrependimento sem tamanho me queimou o peito. Quanto tempo perdido! Quantos passeios no barco eu e ela poderíamos ter feito! Quantas histórias a ler naquela biblioteca de inúmeras e felizes lembranças! Instintivamente olhei  para o alto, na direção da enorme janela da biblioteca. Vi, vi nitidamente, o vulto de mulher que se afastava da vidraça.
Uma dor terrível me fez levar a mão ao peito. Senti uma vertigem e caí ao lado do corpinho inerte. Deitado de costas, vi John carregando o corpo da minha filha em direção à capela.

Meg e a jovem entraram. Fiquei sozinho naquela agonia.  Minutos depois, vislumbrei  o que me pareceu ser um rosto conhecido. Me olhava com piedade, e com um leve e estranho sorriso. Por um segundo tive esperança. Então senti meu corpo rolar, mergulhar e afundar numa escuridão molhada e fria.
                                                                 
                                                                      *******

O dia estava claro. Meg abriu as cortinas e as janelas e a luz do sol se esparramou pela biblioteca. Em seguida foi até a escrivaninha, abriu uma gaveta e retirou de lá uma pasta de couro. Examinou o documento que havia dentro. Com ar satisfeito, fechou a pasta e se retirou, levando-a consigo. Ao sair, parou na porta e olhou para o retrato sobre a lareira. Seus olhos encontraram os da mulher do retrato. Nenhum rastro de umidade naquele rosto. Nunca mais. Fechou a porta e desceu as escadas, entregou a pasta a John e foi ter com a jovem preceptora que a aguardava para o chá.
Durante o dia, naquela casa, um perfume suave, inconfundível, pairava no ar.
À noite, sem que ninguém ouvisse, o silêncio do lago era quebrado por um choro baixo, um lamento abafado...

                                                              





11 comentários:

Al Reiffer disse...

Que melancólico, hein... Por isso, gostei! Abraços!

Bete Nunes disse...

Meio melancólico mesmo.

Obrigada, Reiffer.

Abraços.

Gilberto Carlos disse...

Parabéns, Ligeia. Você é uma ótima escritora. Adoro seus contos!

Bete Nunes disse...

Agradeço muito, Gilberto. Estou tentando... (rs).

Um abraço.

Rafael Castellar das Neves disse...

Muito bom...e veja os resquícios do Allan Poe...

[]s

angela disse...

Intenso, triste e fatalista.
Muito bem desenvolvido.
beijo

Bete Nunes disse...

Muito obrigada, Angela.

beijo tbm.

Roderick Verden disse...

Mais um conto influenciado por Poe, mais um conto repleto de qualidade, revelando seu talento como escritora, Ligéia! Me lembrou "Morella".

E o personagem principal lembrou a mim, pois nunca quis ser pai, preferiria ficar só eu e minha amada. Mas creio q se eu tivesse um filho, o amaria.

Beijos

Bete Nunes disse...

Sim, me deixo levar pela mão do meu Mestre. rs. Eu apenas sigo suas teorias sobre o conto, e nisso ele é reconhecido como um verdadeiro Mestre. Não discorro sobre nada como ele, que tinha uma cultura imensa, conhecia desde filosofia até astrologia. Interessante demais o que você disse. Esse conto tem mesmo fundo psicológico.

Muito obrigada.

Beijos.
Obrigada pelo seu comentário.

Roderick Verden disse...

Adorei suas respostas.

Fico muito triste por eu gostar tanto de vc e a gente não se entender.

Perdão por eu comentar isso. Foi apenas mais um desabafo.

Bete Nunes disse...

Pode desabafar à vontade Roderick. Volte sempre que quiser. E muito obrigada por seus lindos comentários.

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